25.4.06

 

Saudação de Abril

Para assinalar a data que hoje se comemora, quase mítica já para o Povo Português, pretendo deixar aqui um breve testemunho :

De gratidão, em primeiro lugar, aos revolucionários de 1974, pelo risco assumido e pela determinação demonstrada; em segundo lugar, com mágoa, quero confessar quanto me pesa a actual situação em que o País se encontra e as ameaças que sobre ele pairam.

Embora as culpas pela presente situação, caibam aos Portugueses, no seu conjunto, porque têm continuamente legitimado, com o seu voto, a acção dos Políticos que os têm governado, a verdade é que têm sido estes e não a massa do Povo a tomar as decisões que influenciam a vida dos cidadãos e o futuro da Comunidade, como Nação e Estado desde há muito soberanos.

As iniquidades do anterior regime já não atormentam a nossa cidadania, nem a sua eliminação, tardia, porventura incompleta, hoje basta ao nosso desejo de afirmação colectiva, como Nação antiga, orgulhosa das suas distantes glórias.

Os anseios que a Revolução despertou, os sobressaltos que se viveram, por tentativas várias da sua perversão, estão hoje misturados num sentimento de orgulho e de frustração, sendo que este último começa a sobrepujar o primeiro.

Para as novas gerações, as comparações que possamos estabelecer, pouco lhes dizem. Habituadas à normalidade democrática, não têm paciência para relatos históricos para velhas e, agora descabidas, execrações a inimigos desaparecidos.

Esperam um país exequível, organizado, limpo da corrupção ou, pelo menos, não enlodado por ela, com uma Justiça eficaz no combate a essa chaga, sem exigir o paraíso na terra, obviamente, porque a natureza humana, como por demais sabemos, é muito claudicante ante o vício e a ilicitude.

Gostariam certamente as novas gerações de herdar um País com uma Economia estruturada, com os seus sectores equilibrados, com um Sistema de Ensino eficiente, capaz de formar cidadãos, técnica e culturalmente apetrechados, aptos a defendê-lo, como Entidade soberana entre as demais, no espaço político-económico em que nos inserimos e no qual temos de nos confrontar com parceiros muitas vezes falhos de solidariedade e de compreensão para com as nossas debilidades.

Gostariam de acreditar que estamos criando um Sistema de Saúde e de Assistência Social assente na entre-ajuda dos cidadãos, em que os que mais podem contribuem com mais para os que menos podem, fórmula afinal simples de definir o conceito de solidariedade social, tão difícil de alcançar quando imperam as visões exacerbadas de individualismo e concorrência, frequentemente, nem sequer leal, muito menos sã.

Nestes desideratos, as gerações que fizeram e prosseguiram o 25 de Abril devem sentir-se comprometidas, reconhecendo o seu exíguo êxito colectivo.

Trinta e dois anos depois, continuamos na cauda do desenvolvimento económico da Europa dos 15 e perto da dos 25; somos, neste grupo, o país de maior desigualdade na repartição de riqueza; temos um dos mais ineficientes e caros Sistemas de Ensino, uma Economia crescentemente desequilibrada, deficitária em sectores fundamentais da nossa sobrevivência.

Nunca isto será de mais repeti-lo, para ver se ganhamos consciência do trabalho imenso que temos pela frente. Esta é a condição inicial para o ingente processo de regeneração a que estamos colectivamente obrigados.

Impulsionados pelo patriotismo são, lúcido para a realidade circundante, mas exigente e afirmativo, sem receio de o mostrar, com sentido de solidariedade e de justiça, afastando responsáveis corruptos e incapazes, premiando quem possui valor intelectual e cívico, com determinação, ganhando competências que nos faltam, com desejo de honrar os compromissos assumidos, no respeito da memória dos que aqui nos antecederam, sob este exigente influxo ético-cultural poderemos, com certeza, vislumbrar um futuro para Portugal.

Eis o que se me oferece dizer, neste dia, para muitos de luminosa esperança, como para a minha saudosa Mãe, já partida do nosso convívio, que sempre comemorava esta data, para o meu sofrido Pai, felizmente vivo, mas impossibilitado de o festejar, como certamente para uma imensa multidão de nossos compatriotas, uns já esmorecidos, amargurados pelas decepções entretanto colhidas, outros ainda perseverantes nos ideais primitivos, a todos endereço uma saudação de esperança e de ânimo para que, solidariamente, ergamos Portugal desta nova « apagada e vil tristeza» em que ele, hoje, outra vez se encontra.


AV_Lisboa, 25 de Abril de 2006

Comments:
Já tive oportunidade de manifestar o meu apoio aos comentários do António. Tão ocupada estava com o umbigo dos meus blogs, deixei de lembrar-me que estava aqui alguém que escreve posts de uma excepcional qualidade. É tarde para uma saudação à data essencial que é o 25 de abril, mas como digo no meu blog, a revolução é para fazer todos os dias... com crevos de perferência...
 
Very cool design! Useful information. Go on! » » »
 
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